O
evangelho deste 25º Domingo do Tempo Comum nos fala do escândalo da bondade e
da graça de Deus: “Tu os igualastes a nós?” (Mt
20, 12). Deus é bom para com todos, mas isso incomoda. Vivemos
enroscados no narcisismo das pequenas-grandes diferenças. A liturgia denuncia a
dinâmica/lógica humana da inveja estrutural. Queremos ser especiais e não
admitimos que Deus nos iguale. Detestamos a ideia de que todos somos irmãos e
precisamos lutar pelo bem comum.
Humanamente,
todos nós funcionamos na lógica do Superego rígido: a lei do esforço, da
recompensa e da barganha: “se eu trabalho mais eu valho mais”. Quando o patrão
iguala a todos, ele quebra a ilusão do controle e merecimento (que é lógica
humana).
Diante
da bondade e justiça equitativa de Deus, escuta-se um grito de inveja: ”Estes
últimos trabalharam uma hora só e tu os igualastes a nós?” (Mt 20, 12). A inveja não é simplesmente querer o que o
outro tem, mas a dor de ver o outro feliz com que conquistou. Na psicanalise, o
desejo humano é moldado pelo desejo do Outro. Nós medimos nosso valor nos
comparando com o outro. Ao igualar a “moeda” (dom salvação), o patrão comente
um atentado contra o “narcisismo dos primeiros”. A identidade dos primeiros
dependia de se sentirem superiores aos que ficam desocupados nas praças.
Os
evangelhos mostram que a mensagem, a postura e as ações de Jesus escandalizaram
muitas pessoas de sua época, especialmente as pessoa de igreja/piedosas: Jesus
critica a rigidez dos fariseus e o autoritarismo dos políticos de sua época. Em
sua bondade escandalosa ele andava e comia com pessoas de má fama e, ainda,
morreu como um condenado (que chocou as elites): “Bem aventurados os que não se
escandalizam por causa de mim” (Mt 11, 6).
A
lógica do mundo não acompanha a lógica de Deus: “Meus pensamentos não são como
os vossos pensamentos e vossos caminhos não são como os meus caminhos” (Is
55,8). O escândalo da graça é provocativo: “estás com inveja porque estou sendo
bom?” (Mt 20,15). A lógica do pecado produz “olho mau”. Há pessoas que se acham
credor do mundo e de Deus. Gostamos de pessoas que se julgam donas das coisas e
pessoas. Achamos, erroneamente, virtuoso os tiranos deste mundo e, ainda, temos
a crença de que apoiando eles, ganharemos a vida junto deles. É ai que “Deus
derruba os poderosos de seus tronos”(Lc 1, 52).
A
graça de Deus passa a ser escandalosa para quem vive o capitalismo psíquico de
quem se acha no domínio de tudo e no controle do que é de Deus. A maturidade da
fé acontece quando compreendemos que a vida não é uma matemática perfeita e que
Deus não nos deve nada.
A
graça de Deus supera os fetiches devocionais de quem acha que rezando de
madrugada, pagando dízimos altos ou fazendo discursos morais ferozes alcançara
benefícios divinos. A graça acontece quando saímos do mérito para a gratuidade.
Ninguém barganha o amor de Deus, pois Ele não é perverso, mas é puro dom.
“O
contrato feito pelo Senhor” (cf Mt 20, 1s) é para dar-lhes dignidade e sustento.
A vinha não é uma empresa de fachada para lavar dinheiro. O mercenário não ama
a vinha e os trabalhadores, ele ama o dinheiro. Ele ama a imagem dele e o que
pode ganhar com isso. A teologia da prosperidade trouxe para dentro do mundo
cristão a mercantilização do sagrado.
Uma
igreja que adota a lógica corporativista agressiva e se submente a idolatria do
ter acima da dignidade humana, ela valida o adoecimento humano. A lógica do
capitalismo diz que você só tem valor se produzir e consumir. A lógica da
teologia da prosperidade (ramificação do capitalismo) diz que a salvação só
pode ser adquirida por méritos devocionais (capital de graça), obediência
alienada, liberdades de capital (por isso que todo o capitalista neoliberal
detesta a ideia de liberdade humana) e a divisão meritocrata travestida de
discurso religioso: puro e impuro.
Os
trabalhadores da ultima hora são os aposentados que sofreram descontos ilegais
em seus benefícios, são os fieis simples que são obrigados ofertar grandes
quantias para bancar lideres religiosos que compactuam contra as politicas de
garantias dos trabalhadores, etc...
Os
trabalhadores de ultima hora são aqueles que vivem no desamparo de uma
sociedade elitista que não tem pena de ninguém.
Os
trabalhadores da primeira hora murmuram porque Deus é bom. Quantas vezes já
escutamos alguém dizer: “Deus é bom, mas é justo”, mas usam o seu critério de
justiça odiosa e vingativa e projetam em Deus. Há muita gente perversa que usa
o nome de Deus para realizarem as maiores falcatruas do mundo contra os simples
e humildes.
Por
vezes, encontramos pessoas que dizem “sou católico, apostólico, romano”
alicerçadas em discursos moralistas achando que o que vai lhe salvar são seus
méritos. Para estes, Deus continuará sendo um escândalo e continua a andar com
gente sem presunção meritocrata-moralista.
“Voltai
para Deus (...). Convertei-vos”, dizia o profeta Isaías (55,6s). A liturgia de
hoje nos lembra do escândalo da bondade de Deus. E é nela que alicerçamos nossa
vida: “O Senhor é muito bom para com todos” (Salmo 144(145)).
Edjamir Silva Souza
Padre e psicólogo


