Domingo passado ouvíamos que Abraão recebeu a visita da Divindade nas
pessoas de três personagens (cf. Gn 18,
1-10a) que foram muito bem acolhidas por Abraão que lhe ofereceu um
banquete e recebeu em troca a promessa do nascimento de um filho, o primogênito
herdeiro de seu clã. O texto de hoje (Gn
18, 20-32), que é uma continuidade, diz que saindo de lá a Divindade acompanhou
Abraão até o alto de um lugar onde se avistava a cidade de Sodoma e verificou o
pecado deste povo (falta de hospitalidade) em contra ponto a humildade e o
acolhimento de Abraão. HUMILDADE E ACOLHIMENTO SÃO SINAIS DE FÉ.
"Sodoma e Gomorra" podem ser compreendidas como a extensão de
cinco cidades do “Vale de Sidim” ás margens do mar Morto: Sodoma, Gomorra,
Admá, Zebolim e Bela (cf Gn 14, 1-4). O vale de Sidim era descrito como um
lugar paradisíaco, na falha geológica do vale do Jordão. Numa área sujeita a
terremotos, gases e atividades vulcânicas.
“Sodoma” entrou para a história com a interpretação de pecado na ordem
moral sexual; mas, segundo a Mishná (tradição bíblica) os pecados de Sodoma
estavam relacionados à ganância, ao apego excessivo à propriedade, a falta de
compaixão, blasfemos e um povo sanguinário. Outra tradição acusa Sodoma e
Gomorra de sádicos no modo como tratavam os visitantes.
Diz o profeta Ezequiel (16,49): "Eis que esta foi a
iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão, e abundância de
ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do
necessitado. E se ensoberbeceram, e fizeram abominações diante de mim;
portanto, vendo eu isto, as tirei dali." O próprio Jesus recordou desse pecado contra a
hospitalidade (cf. Mt 11, 23), confirmando a tradição da Mishná.
Há um fato curioso, pois a narrativa bíblica que acusa Sodoma do crime
cometido contra os forasteiros tem um paralelo ao de Procusto (mito Grego) onde
os visitantes eram obrigados a dormir em sua cama. Conta à lenda que na casa de
Procusto havia uma cama de ferro que tinha seu exato tamanho, para o qual
convidava os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes não tivessem a medida de
sua cama ele amputava o excesso de cumprimento para ajustá-los à cama, e os que
tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento suficiente.
AS VISITAS NUNCA SE AJUSTAVAM EXATAMENTE AO TAMANHO DA CAMA, PORQUE PROCUSTO,
SECRETAMENTE, TINHAM CAMAS DE TAMANHO DIFERENTES. Seu reinado acabou quando
Teseu prendeu Procusto, em sua cama, cortando-lhe a cabeça e os pés, dando-lhe
o mesmo suplicio que aflingia aos seus hóspedes.
Em regra geral, Procusto, representa a intolerância do ser humano em
relação ao seu semelhante: se não tiver na minha medida será duramente punido.
O mito é uma metáfora para criticar tentativas de imposição de um padrão
hostil.
Como não recordar que durante o reinado de Henrique III (1533), os
ingleses, adotaram a lei de Ato de Sodomia, para todo o reino, como um ato
contra a natureza e contra a vontade de Deus, com punição de morte, às relações
homossexuais. Uma intepretação mais profunda fez com que essa lei fosse
revogada no ano de 1967. Hoje, temos a
convicção que uma boa exegese pode mudar a compreensão e fazer entender e
acontecer a boa justiça.
No texto de hoje, Abraão, homem justo, intercedendo pelos justos que
vivem nesta cidade. nos enche de esperança, pois um único justo pode salvar a humanidade. E, para nós cristãos, a
justiça/ justo tem um nome: “Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor
junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2, 1ss).
O salmista (137(138), 6-7a) canta: “Altíssimo é o Senhor, mas olha os pobres, e de
longe reconhece os orgulhosos. Se no meio da desgraça eu caminhar, vós me
fazeis tornar à vida novamente”. Essa é
a atitude de Abraão que não é presunçoso e arrogante como os habitantes de
Sodoma ou como foi à arrogância de Caim que matou o seu irmão (cf. Gn 4, 8-16).
Em Mateus 7, 24-30 o evangelista narra o episódio daquela mulher Siro-Fenícia
que se coloca numa atitude humilde pedindo a atenção de Jesus e ele se convence
da amplitude de seu ministério.
Em nossas orações/louvores como nos colocamos
diante de Deus? Lembre-se de que Deus se coloca ao lado dos pobres e humildes?
De que lado você fica? Estamos mergulhados em Cristo (cf Cl 2, 12-14)?
O evangelho
deste domingo (Lucas 11, 1-13), está em profunda continuidade com o evangelho de
domingo passado quando nos ensinava que o lugar do discípulo que deseja
aprender algo do Mestre é “está aos seus pés e ouvi-lo” (cf. Lc 10, 39). Hoje, seguindo
para Jerusalém, os discípulos vêem Jesus orando com tanta humildade e
profundidade que lhe pediram: “Ensina-nos a orar, como João ensinou aos seus
discípulos” (Lc 11, 1). Os discípulos pedem a Jesus que ele os ensine a
dialogar com o Pai, como fez Abraão.
Na oração, Jesus ensina cinco pedidos: “Santifica o
teu Nome”, “Venha o Teu Reino”, “Dá-nos pão de que precisamos”, “perdoa os
nossos pecados, como também perdoamos”, “Não nos deixes cair em tentação”.
João e Jesus recordam a imagem profética do projeto
de Deus: um projeto que exige que as pessoas reconheçam Deus como único Senhor
(“Santificado seja teu nome”), que estejam abertas as características de um
Reino diferente dos esquemas humanos (“Venha o Teu Reino”), onde haja o pão de
cada dia para todos (“Dá-nos pão de que precisamos”), mas também o Pão
transcendente que é Jesus (“Isto é o meu corpo/isto é o meu sangue”), onde o
amor vença a arrogância/ódio, e o perdão refaça as relações nos lembrando de
que somos irmãos (“Perdoa nossos pecados, como nós também perdoamos”). A oração
conclui pedindo que tenhamos a sabedoria do alto para não (“cair na tentação”)
de negarmos o Projeto de Deus, mas sermos perseverantes nele.
As duas parábolas que aparecem no evangelho de hoje
tendo como protagonista o amigo inoportuno e o pai que sabe o que dar aos seus
filhos, são somente ilustrações para comparação do relacionamento dos que são
crentes com Deus. Na Parábola, Deus é apresentado com alguém infinitamente bom
e que nos dá melhor: o Espirito Santo, pois com Ele o discernimento é iluminado.
Oremos e busquemos no dia-a-dia discernir e fazer a vontade do Pai e tudo vira como acréscimo.
Edjamir
Silva Souza
Padre e
Psicólogo
Nenhum comentário:
Postar um comentário
O conteúdo do comentário é de inteira responsabilidade do leitor.