Estudo de Poliana Palmeira investiga os determinantes sociais, climáticos e políticos da insegurança alimentar.
Graduada em Nutrição pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Poliana Palmeira é mestre pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em Ciências Nutricionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também fez estágio de doutorado-sanduíche na Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, em Connecticut, nos Estados Unidos. Atualmente, é professora na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Ex-bolsista da CAPES, a pesquisadora estudou, no doutorado, concluído em 2019, os efeitos de programas governamentais na redução da insegurança alimentar, com recorte para o semiárido brasileiro. Agora, coordena estudos que investigam aspectos sociais, climáticos e políticos relacionados à fome. “Desde a graduação me engajei na iniciação científica, quando comecei a estudar o tema da insegurança alimentar e da fome, e me descobri como pesquisadora e para a vocação como docente. Tinha certeza de que queria continuar na universidade. E, assim aconteceu. Hoje, coordeno o Núcleo de Pesquisa e Estudos em Nutrição e Saúde Coletiva (Núcleo PENSO) que reúne mais de 30 pesquisadores e pesquisadoras em diferentes momentos da formação, integrando graduação e pós-graduação. O que é mais especial, o nosso grupo está sediado em um campus de expansão da UFCG, localizado em Cuité na Paraíba, em uma cidade com pouco mais de 20 mil habitantes no semiárido nordestino”, comenta. Ela é uma das autoras de capítulo contido na publicação Segurança Alimentar e Nutricional: o papel da ciência brasileira no combate à fome, produzida pela Academia Brasileira de Ciências (ABC).
Sobre o que são as suas pesquisas? Explique de forma mais detalhada o conteúdo do trabalho.
Tenho atuado na orientação de discentes de mestrado e doutorado com estudos sobre determinantes de sociais e desfechos de saúde da insegurança alimentar, principalmente sobre o impacto dos programas governamentais no atual cenário de fome nas famílias brasileiras. Analiso a ocorrência da insegurança alimentar e da fome a partir de pesquisas com desenho transversal e longitudinal. Nesses estudos, investigo os determinantes sociais, climáticos e políticos da insegurança alimentar, além dos impactos da privação alimentar no consumo de alimentos, na saúde e na qualidade de vida das pessoas. Temos um interesse específico ainda das consequências da privação alimentar na primeira infância e na ocorrência e no cuidado no contexto das doenças crônicas não transmissíveis.
O que vale destacar de mais relevante nas suas pesquisas?
Inicialmente, a contribuição que os estudos trazem para o monitoramento da fome e insegurança alimentar no Brasil. Entendo que o monitoramento é uma ferramenta fundamental para a construção de políticas públicas. Outro ponto que destaco é o estudo sobre os programas governamentais e o impacto na redução da fome. A partir de estudos longitudinais, conseguimos mapear e constituir uma rede de proteção ao direito humano à alimentação adequada, composta por 14 programas governamentais que foram acessados pelas famílias do semiárido nordestino, entre 2011 e 2019. Observamos que as famílias que se mantiveram em segurança alimentar persistente no período estudado, ou seja, que relataram pleno acesso à alimentação, tiveram acesso e utilizaram uma rede mínima de iniciativas governamentais, composta pela Estratégia de Saúde da Família, Farmácia Básica, Bolsa Família e Garantia Safra. De forma semelhante, também se observa nas famílias expostas à privação alimentar, nos nossos estudos mapeamos programas governamentais dos setores da saúde, agricultura, desenvolvimento social e assistência alimentar que contribuíram para a superação da insegurança alimentar e da fome. Queremos avançar também no debate sobre o efeito sinérgico dos programas na superação da fome, pois essas ações precisam chegar juntas às famílias para que essa superação permaneça. Também estamos analisando os determinantes climáticos da insegurança alimentar e da saúde e nutrição na infância. É um projeto no campo da ciência de dados, financiado pelo Ministério da Saúde e o CNPq, do qual faço parte da coordenação. Estamos desenvolvendo uma plataforma integrada de indicadores com dashboard de resultados que possa orientar políticas públicas e fomentar estudos neste campo. São mais de 300 indicadores já pré-selecionados para compor a plataforma Fomes, oriundos de 53 bases de dados públicas brasileiros.
De que forma a sua pesquisa pode contribuir para a sociedade?
Uma das linhas de investigação que trazem importantes contribuições para o campo científico e a sociedade é justamente a análise do impacto do acesso aos programas governamentais intersetoriais. Outra linha de pesquisa na qual tenho trabalhado e que está se consolidando é o estudo sobre a insegurança hídrica. Atualmente, participo de um grupo de pesquisadores que está validando uma escala brasileira de aferição da insegurança hídrica, tema que sempre me interessou, justamente pelo contexto do semiárido no qual a universidade em que trabalho está inserida – em Cuité, Paraíba, um típico município do semiárido nordestino.
De que forma a bolsa da CAPES contribui para sua formação?
A bolsa da CAPES teve importância fundamental no meu desenvolvimento como pesquisadora e como docente da pós-graduação. Fui bolsista no mestrado e também bolsista da CAPES como docente em capacitação, é uma contribuição que perdura até os dias de hoje. Pela CAPES, também tivemos aprovado um projeto sobre os efeitos da pandemia de Covid-19 na alimentação dos brasileiros, que ofertou bolsas de mestrado e doutorado para estudantes sob minha orientação, o que foi fundamental para o meu desenvolvimento como professora da pós-graduação.
CGCOM/CAPES
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