A Festa de Pentecostes em sua origem bíblica
remonta a Festa das Semanas (Shavout), uma das três grandes peregrinações
prescritas na Lei de Moisés. Era uma festa de origem agrária (o fim da colheita
do trigo e o agradecimento pelos primeiros frutos da terra), mas também tinha
seu caráter teológico (a entrega da Lei por Deus a Moisés no Monte Sinai), pois
se celebrava a memória da Aliança feita por Deus e a formação do Povo de
Israel. No Novo Testamento, Jesus dá um novo caráter a esta festa, celebra-se a
Nova Aliança no Espírito Santo.
Os Evangelhos narram à vinda do Espírito Santo
sobre Jesus no dia de Seu batismo (cf. Mt 3, 16-17. Mc 1, 10-11. Lc 3, 21-22.
Jo 1, 32-34). Mas, os evangelistas narram à doação do Espírito (Pentecostes) em
momentos distintos (cf. Jo 20,19-23. Lc 24,49. Atos 2,1-11).
“O Cordeiro de Deus, foi transpassado pela lança”
(Jo 19,34), João igualou a cena da cruz ao sacrifício do cordeiro realizado no
Templo. Aqui está a Nova Aliança selada
na cruz. Desde o começo de seu evangelho, João descreve Jesus como “Cordeiro
que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).
“Tudo está consumado! E, inclinando a cabeça
entregou o Espírito” (Jo 19,30). No contexto da morte comum se diz que o
espírito foi tirado, mas aqui, o Cordeiro de Deus dá o seu Espírito
voluntariamente. Os sistemas que levaram Jesus à morte (o espírito do mundo)
pensaram que o tinham matado. Mas, Ele mesmo diz “ninguém tira minha vida, eu
ao dou livremente” (Jo 1, 17ss).
Aquele mesmo Cordeiro que estava na cruz, agora se
faz presente no meio da igreja “em pé”, “vivo”, “vivente” (cf. Ap 1, 18. 5,6)
nos dando seu Espírito de paz e amor (cf. Jo 20,19-26. Atos 2, 1ss). E diz:
“Como o Pai me enviou, assim, também eu vos envio. Recebam o Espírito Santo”
(Jo 20,21-22).
“Recebam o Espirito Santo” (Jo 20,21ss). Eis o
sopro novo da vida que nos torna capazes de vencer o medo do mundo, de
escancarar as portas que insistimos em fechá-las como forma de resistência, de
segurança, falsa sensação de tranquilidade e proteção. É preciso “sair” para respirar
novos ares e ter a coragem de lutar contra todas as forças que se opõem ao
projeto de Deus que é dar “vida plena para todos” (cf. Jo 10,10).
Os sistemas do mundo sempre apresentarão uma falsa
divindade (e falsa religiosidade) que continuará destruindo e humilhando
vergonhosamente aqueles que acreditam no evangelho do amor, da libertação e da
vida. Haverá sempre perseguições contra
aqueles que sonham com um mundo diferente, onde todos são respeitados na sua
singularidade e formas de existir e estar. Sempre será sobre estes que sonham
com o bem comum que o Espírito de Deus fará morada.
O Espírito de Sabedoria de Deus sempre alertará os
filhos de Deus das muitas situações de injustiças e de morte deste mundo que
vive doente: as guerras, as intrigas, a miséria, o narcotráfico, o assassinato
de crianças e mulheres, o abandono dos idosos, a exclusão dos mais vulneráveis,
a mentira, o oportunismo dos grandes, a competitividade, o mercenarismo do
mundo das igrejas...
É deste mundo que temos medo e ficamos trancados
dentro das nossas casas ou igrejas, às vezes, com o pretexto acovardado de
dizer que estamos rezando em casa “adorando ao Senhor” nas nossas madrugadas obscuras
de fantasias e ambições.
Acovardados esquecemos que é através de todos nós
que o Cordeiro de Deus também tira o pecado do mundo: “como o Pai me enviou eu
também vos envio” (Jo 10,10).
O Espirito Santo sempre nos impulsiona para fora,
para a vida. E a pergunta é: de que lado ficamos? Enfrentamos os sistemas de
morte da vida ou nos acovardamos? Recordemos que “a cada um é dada a
manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor12, 7).
“Vinde Pai dos pobres” (Sequência de Pentecostes).
O Espírito de Deus dá os dons necessários para lutar contra o pecado do mundo
(Sabedoria, Entendimento, Temor a Deus, Ciência, Conselho, Fortaleza, Piedade).
Em vista dos frutos que o Reino de Deus precisa.
Jesus dá sua própria vida porque acredita em nós e
o sopro de Deus que trouxe vida ao primeiro homem é sempre dado a todos e as
comunidades para fazer de nós uma comunhão de esperança e coragem. Este mesmo
Espírito que nos dá vida e coragem também nos defende em meio às perseguições e
acusações do mundo. Ele é a semente da Vida Eterna que já está dentro de
nós.
Pentecoste é um convite a tomarmos consciência da
força Divina dentro da Igreja e em cada um de nós. É o senso prático de que
devemos continuar a missão de Jesus em vista de instaurar o Seu Reino: Primeiro,
promover entendimento, compreensão e comunhão na diversidade, uma Babel ao
contrário (cf. Atos 2,11); Segundo, a coragem de anunciar com audácia os
valores do Reino de Deus em meio a um mundo tão violento e desigual (cf. Atos
4,31); Terceiro, Pedro acolhe a todos, pois o Espírito Santo está acima das
categorias sociais, culturas, religiosas, etc. “Sem mesmo a intercessão de
Pedro, o Espírito desceu sobre os pagãos” (cf. 10,44-48), isso nos faz pensar a
realidade de nossas paróquias e grupos (temos preconceitos?).
Mais do que adorar precisamos crer no poder
renovador do Espírito Santo e nos deixar conduzir pela sua força. Promover a
união, a compreensão, acolher a todos, promover obras contrárias à esta
sociedade violenta, partilhar, proporcionar uma sociedade igualitária ontem
todos tenha condições de vida digna, respeitar as condições afetivas e sexuais
da pessoas entendendo-as como uma forma de estar no mundo sem as antigas e
enrijecidas convicções. Assim, o Espírito Santo nos ensina a ter
espiritualidade que vai além da idéia de uma eclesiologia legalista.
Vinde Espirito Santo, enchei os nossos corações e
renova a face da terra, dai-nos a graça de compreender que somos todos filhos
do mesmo Pai e irmãos uns dos outros. Faz-nos, com teus dons, que nos tornemos
capazes de consolar uns aos outros. Promotores de reconciliação e de paz. Testemunhas
da Verdade do amor que nasce do Evangelho.
Boa Semana!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo

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