A
liturgia da Palavra neste 14º Domingo do Tempo Comum nos faz uma pergunta: Como
estamos acolhendo a Palavra de Deus?
Na 1ª Leitura (Isaías 55, 10-11) o profeta nos fala da eficácia da Palavra de Deus.
É uma palavra de consolação a um povo que esteve no cativeiro. Ele sabe que a Palavra
de Deus proclamada não retorna ao céu sem produzir frutos. A terra árida
produzirá frutos. A natureza tem um ciclo de produção e se torna imagem da
própria vida. Cada qual garante sua participação: a chuva, a semente, a terra
boa.
A
Palavra de Deus sempre será um estimulo de ação e nunca um anestésico que nos
coloque em relação passiva diante do mundo. A medida de nossa responsabilidade
passa pela resposta que damos ao Reino da Vida,
Na 2ª Leitura (Rm 8,18-23) Paulo continua ensinando que o caminho da salvação
oferecido por Jesus não é fruto de nosso mérito, mas uma dádiva única e
exclusiva da bondade de Deus. A salvação atua em nós pela ação do Espírito
Santo quando lhe damos abertura.
Paulo
universaliza a salvação dizendo que toda a criação precisa viver uma vida de
acordo com os desígnios de Deus. A vida plena depende das escolhas que são
feitas. O apóstolo ensina que por causa do egoísmo humano a criação sofre. A
vida não pode acontecer quando as pessoas vivem na carne (egoísmo, arrogante,
etc). O horizonte de maldição e de morte ocorre, não por misticismos, mas
quando o egoísmo se expande. Viver no
Espírito é fazer a vida acontecer para todos. O Espírito de Deus faz acontecer
um novo céu e uma nova terra. Mas, viveremos na lógica da dor enquanto o pecado
reinar nos corações das pessoas.
O
Espírito nos faz atravessar as duras etapas da vida, mas ele mesmo nos dirá as
renúncias necessárias que devemos fazer para que a vida aconteça. A mulher em
dores de parto é a imagem de que as dores de certas renúncias podem favorecer
para que a vida aconteça.
Quando
imaginamos os senhores que detém as grandes fortunas renunciando a lógica do
ter para partilhar, quando imaginamos que os senhores das guerras renunciam
suas ambições e desfazem os instrumentos de guerras para que haja a paz, quando
renunciarmos nossa mania de querer dominar tudo, então, a vida acontecerá para
os outros e a vida nova no Espírito acontecerá, mesmo como que em dores de
parto.
Somos
resistentes às renúncias porque temos medo da sensação de ter perdido algo, de
ter deixado algo para trás, dessas vulnerabilidades interpretadas erroneamente
como fracasso ou fraquezas, queremos ser onipotentes. Achamos que ter tudo ou
controlar tudo é a garantia de viver bem.
A
vida dá sinais de dores quando a exploramos de modo errado, mas quem terá a
sabedoria do Espirito para perceber isso? A ideologia da meritocracia não
aceita que tudo é de Deus e, por isso, tem medo de que o evangelho desmonte os
senhores deste mundo. Estes senhores fazem a vida sofrer.
O
cristão tem que perceber, no Espírito, quando as renúncias são vazias de
sentido. Nossa sociedade é carente de sentido e, por isso, muito fácil aos
oportunistas disfarçados de “gente boa”. O que significa fazer jejum,
quarentenas, grandes procissões, ser assíduo na missa dominical, distribuir
cestas básicas quando fazemos isso sem o propósito de que a justiça do Reino de
Deus aconteça (cf. Is 58, 3-9. Mt
9,14-15). O que significa vender sua casa ou seu transporte para dar tudo
de oferta a um pregador que vive só pedindo dinheiro (e vive no luxo) e fazendo
promessas vazias e você mesmo ficar na dependência dos outros ou mesmo na
miséria. Será que essa é a renúncia que Deus quer? Não seria a vontade daquele
empolgado pregador?
Compreendamos
de uma vez por todas que a criação deve ser vista no espírito de fraternidade e
partilha. LEMBRE-SE QUE TUDO É DE DEUS E NINGUEM É DONO DE NADA E NEM SENHOR DE
NINGUÉM. Lembre-se que os pequenos hábitos de renúncias podem mudar a vida e
inspirar muita gente boa (na justiça e na paz). Deixemos para as futuras
gerações um ambiente seguro e de vida fraterna.
No Evangelho (Mt 13, 1-23) entramos nas Parábolas do Reino. Jesus prefere
ensinar o Reino dessa maneira e não como os velhos esquemas dos fariseus. Jesus
é o semeador que saiu para semear o Reino no terreno da vida. Quem dá abertura,
então, a vida nasce (ou renasce) e produz frutos. As parábolas não são
ensinamentos prontos, mas desafiam o povo a pensar a vida...
Enquanto
Jesus semeava foi acusado pelos fariseus de desobediência e chamado até mesmo de
Belzebu, porque fazia o bem. Como é difícil para muitos que estão ligados ao
templo compreenderem que é fazendo o bem que nos salvamos. Os fariseus radicais
e piedosos tinham dúvidas em relação a isso. Eles viviam pedindo sinais e os
gestos de bondade eram insuficientes para que eles acreditassem. As propostas
de Jesus encontravam resistências e fechamentos por parte de muitos. Mas, quem
acredita Nele dará frutos mesmo em meio as descrenças dos outros.
Em
nosso tempo o Reino enfrenta as distrações e os ruídos de uma sociedade que
espalha ódio. A Palavra de Deus, caída à beira do caminho das nossas supercialidades,
está sujeita aos pássaros que hoje roubam as sementes: a cultura do ódio e cancelamento
por causa da cor, gênero, região, situação econômica e social. Há pessoas que
detestam ouvir isso.
É
muito comum encontrar igrejas lotadas para ouvir palavras de conveniências, mas
quando as profecias do Reino nos chegam com toda a sua força e originalidade,
então, perdemos a empolgação. Gostamos de cantar que nossa vida tem sido “como
a terra seca que anseia pela chuva”, mas quando a chuva que semeia o Reino
dentro de nós chega, não nos comprometemos, pois queríamos apenas cantar para
sentir uma emoção. CONTINUAMOS SENDO TERRA SECA.
O
Reino de Deus, anunciado por Jesus, denuncia os espinhos da ganância que
sufocam o bem comum e a fraternidade. Uma sociedade injusta sufoca inclusive a
saúde mental do povo e a vida do trabalhador. Os espinhos da vaidade e a busca
desenfreada pelo status social disfarçam muito bem as falsas religiosidades de
nosso tempo. A teologia da prosperidade disfarça muito bem as inversões de
valores onde as coisas valem mais do que as pessoas. O acúmulo dos bens sufoca a
proposta do REINO DE DEUS.
Quando
nossos pregadores não se comprometem com a justiça, são estes que vivem a beira
do caminho. Chacoalham e emocionam as assembleias, mas não tem maturidade para
enfrentar as injustiças da vida, não estão preocupados com a Aliança e nem com
o bem do povo.
Jesus
é o semeador que escandaliza. Ele é Palavra semeada que denuncia o sintoma
social que todo mundo vê, mas faz de conta que não vê. Ele questiona todo o
escapismo espiritual de quem vive dizendo “Senhor, Senhor”, mas nunca será
salvo por causa de sua indiferença.
Às
vezes, a semente não entra, porque se ela entrar vai quebrar a nossa ilusão de que
somos “pessoas de bem”. Concluo retornando a pergunta que fizemos no início: Como
estamos acolhendo a Palavra de Deus?
Boa semana!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo
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