Nas
últimas semanas ouvimos Jesus falando em parábolas sobre o Reino de Deus e a
sua justiça; porém, diferente das parábolas bucólicas do início de seu
ministério (como o grão de mostarda ou o fermento) Ele passa a utilizar
narrativas de forte teor profético, escatológico e de enfrentamento direto.
Ao
longo da semana escutamos Jesus endurecendo o discurso e denunciando a
hipocrisia das autoridades de seu tempo. Ele expõe a corrupção das lideranças,
a indiferença e ingratidão, mas eles não querem ouvir isso e também não deixam
muito barato as muitas acusações que Jesus faz; por isso, tentam de qualquer
forma desestabilizar o ministério de Jesus com mentiras e todo o tipo de
ameaças. E Jesus tem consciência disso (cf. Mt 17, 22-33. Mc 9, 31. Lc 9, 44).
No
evangelho deste 29º Domingo do Tempo Comum (Mt 22, 15-21) a gente percebe que
eles estão tentando algo contra Jesus. O evangelista apresenta um verdadeiro
teatro de poder e uma encenação cínica: os fariseus (guardiões da lei moral) e
os Herodianos (colaboracionistas do Império Romano) aliaram-se por um objetivo
vil: encurralar Jesus.
Com
acusações falsas eles provocam Jesus: “É licito ou não pagar imposto a César?”.
Não havia resposta fácil dentro da lógica humana a ser dada. Se Jesus afirmasse
que “sim”, seria aclamado como traidor do povo dominado e complacente com a
opressão dos romanos. Se dissesse “não”, seria denunciado ao Império como um
subversivo a ser executado.
A
resposta de Jesus não é uma esquiva diplomática, mas uma resposta profética.
Ele diz: “De quem é a imagem e a inscrição?”. Eles responderam: “De César”. E
Jesus responde: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. A
moeda que traz a “imagem” de César (Imperador Romano) vai além das questões
econômicas, mas submissão existencial e a idolatria.
A
resposta de Jesus é muito responsável, pois Ele sabe que seu posicionamento
pode colocar as pessoas mais simples e frágeis, que Ele tanto defendeu, em
situação de vulnerabilidade e ameaça. Nem a César (corrupto, sanguinário e
desumano) e nem aos religiosos hipócritas, Jesus quis entregar o povo.
Dar
a Deus o que é de Deus é libertar o ser humano desses esquemas ideológicos para
que as pessoas tenham vida, liberdade, onde cada um possa crescer no seu
direito pleno de existir como sujeito, sem armas, violência e o interesse de
eliminar o outro. Jesus quer uma sociedade onde as pessoas vivam de modo mais
justo, Ele sonha numa nova ordem mundial onde o pecado das desigualdades não
mais exista (“novo céu e uma nova terra”).
A
verdade do seu Reino é libertadora. Na psicanálise, quando o sujeito se submete
a cegueira do discurso de dominação, ele passa a carregar no seu próprio corpo
e na sua mente a marca e a estampa de um sistema que o “coisifica”.
São
João Crisóstomo (347--407) e São Basílio Magno (329-379) ensinavam que a moeda
carregava a imagem de César, mas a alma humana, esculpida pelo sopro de vida,
carregava a Imagem do Deus Vivo! César pode exigir o metal, mas não pode exigir
a alma, a consciência, a liberdade, dignidade e nem o destino humano, pois isso
pertence a Deus.
Quando
vemos representantes do povo tomando decisões impopulares para prejudicar as
pessoas ou usam de discursos cruéis e desumanos contra minorias, o senso da Palavra
de Deus já denuncia de imediato que estes têm projeto de dominação que degrada
o bem comum (algo tão desejado por Deus). É dessa verdade evangélica que nasce
a Doutrina Social da Igreja. Ela nos ensina que o princípio supremo de toda a
reflexão cristã é a dignidade inalienável da pessoa humana, criada a imagem e
semelhança de Deus (cf. DSI, 105).
Desde
a Encíclica Rerum Novarum do Papa
Leão XIII a igreja afirma com clareza que o trabalho humano não é uma
mercadoria e nem uma engrenagem para o enriquecimento de poucos. São João Paulo
II denunciou (na Encíclica Centésimus
Annus) a tendência de transformar a sociedade em um mercado onde tudo se
compra e se vende, reduzindo o ser humano a mero consumidor. Já o papa Bento
XVI (na Cáritas in Veritatis)
recordou que a economia não pode ser um espaço de selvageria ou de neutralidade
quando se trata de defender a dignidade humana e a busca pelo bem comum.
É
aqui que o Evangelho da vida se torna uma espada e um grito profético para o
nosso tempo. “Dar a Deus o que é de Deus” estabelece um limite inegociável
contra qualquer poder, tirania ou modelo econômico que se põe como absolutos e
senhores do povo. Um mercado financeiro predatório que desrespeita a lógica
evangélica do bem comum será sempre a imagem de César e nunca de Deus.
O
Prémio Nobel da Paz (2001), o economista Joseph Stinglitz denunciou o
fundamentalismo de mercado que não gera liberdades humanas, mas potencial sistema
de desigualdades e esmaga os mais vulneráveis.
Papa
Francisco (na Exortação Evangelii Gaudium)
ecoou o brado da doutrina social afirmando que economias liberais são sistemas
que matam. Um sistema que idolatra o mercado e reduz a dignidade humana é
perverso e idolátrico. Ele sacrifica o povo no altar do lucro. O profeta Amós
bradou certa vez: “Vocês pisam no pobre e deixam tributos de trigo” (5, 11.
24). A verdadeira profecia não admite anestesia moral e nem o cinismo
travestido de ordem.
Resgatar
a dignidade humana é dar a Deus o que é de Deus, mas é também resgatar as
pessoas do cativeiro da falsa ilusão de progresso quando, na verdade, submete
pessoas a sistemas a patrões. A Sagrada Escritura nos ensina “é para a
liberdade que Cristo nos libertou” (cf Gl 5,1).
Celebremos
a conquista da redução da jornada de trabalho, pois ela decide pela vida e a
integridade do trabalhador que pertence a Deus e não ao deus-mercado. Jesus, no
evangelho, delimita o poder absoluto e desumano de César e dos sistemas
econômicos alertando de que eles não são donos da vida e do povo.
O
trabalhador reivindica o direito de dar a Deus o que é de Deus: o tempo para a
vida espiritual, para a família, para os amigos, para a comunidade, para viajar
e descansar, para o autocuidado. Reduzir a jornada de trabalho não é coisa de
preguiçoso, como os idólatras do dinheiro e do trabalho dizem, mas para que as
pessoas tenham vida para além da produção de riqueza material.
Não
nos deixemos enganar pela encenação cínica de quem legitima a negação dos
direitos humanos (e dos mais fracos), inclusive o usando o nome de Deus em vão,
para respaldar projetos de exclusão e miséria. Dignidade humana não se decide
com os Césares/patrões mercenários, mas se aprende em Deus.
Que
a liturgia deste domingo mova corações e nos torne profetas da vida, do amor,
da justiça social e da verdadeira liberdade humana. No final dos tempos não
seremos julgados pelo que temos ou acumulamos, mas pelo quanto amamos e
defendemos os irmãos que são imagem e semelhança de Deus. Qual a imagem que você tem?
Paz
e Bem!
Edjamir Silva Souza
Padre e Psicólogo.

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