domingo, 28 de maio de 2023

Padre Edjamir Sousa Silva: Pentecoste: Por uma nova humanidade

 



A Festa de Pentecoste no Antigo Testamento era a festa das sete semanas e estava vinculada aos ciclos da natureza (cf. Ex 34,22. Nm 28, 26. Dt 16,10. Cr 8, 3). Os judeus celebravam as primícias da ceifa do trigo. Em um segundo momento da história de Israel a Festa de Pentecoste foi vinculada a recepção da Lei (Aliança) no Monte Sinai. No Novo Testamento o verdadeiro dom é o amor, isto é, o Espirito Santo.

O Ressuscitado ofereceu a “Paz” e o “Espírito Santo”. O Espírito é o fruto maior da ressurreição. Assim como os judeus ofereciam as primícias das espigas de trigo, agora, Jesus e o Pai, oferecem as primícias do Espirito Santo.
No dia de Pentecostes, portas fechadas, medo e fé travam o seu duelo no coração dos discipulos. Neste mesmo dia acontecia uma teofania: barulho, forte ventania, línguas de fogo. O Espirito e fogo, força, calor, movimento, dinamismo, purificação.

O Espirito de Deus foi compartilhado, como no Antigo Testamento (cf. Nm 11), quando Moises desejou ardentemente que este Espirito fosse derramado sobre todo o povo. O profeta Joel (3, 1-5) retoma esta mesma profecia e deseja que toda carne profetize na força e no Espirito.

O Espirito pousa sobre cada um dos apóstolos e enche toda a casa. O mesmo Espirito reparte-se, sem se diminuir. A imagem das línguas aponta para a necessidade da proclamação da Palavra a todos os povos (missão). É o milagre da comunicação.
Os apóstolos começam a anunciar o evangelho em línguas diferentes (cf At 2, 4). É a “saída” de dentro da casa para o mundo “externo”. Em Atos 2, 6 se supõe que os apóstolos estão diante de uma multidão (fora da casa). Na cidade de Jerusalém estão pessoas de todas as partes e todos escutam a pregação do evangelho em sua própria língua.

É o mistério da unidade dentro da pluralidade (línguas e povos). Pentecostes é o reverso da confusão de Babel (cf. Gn 11). Em Babel se falava a mesma língua, a presunção da uniformidade, mas ninguém se entendia. Tudo em Babel era confusão.
No meio da confusão e medo o Espirito Santo gera diálogo, ousadia, portas abertas e inicio da pregação do evangelho.

O Evangelho narra a aparição do Ressuscitado aos dez apóstolos (Judas suicidou-se e Tomé não está presente). É o primeiro dia da semana e significa o inicio de uma nova humanidade. O Ressuscitado entra no meio deles e de modo novo (corpo glorificado) saúda, duas vezes, com o shalom de Deus. E mostrando as marcas da paixão, confirma a sua identidade: o ressuscitado é o crucificado. Jesus entrega o seu Espirito e os envia em missão.

A primeira missão da Igreja é a reconciliação e o perdão. A comunidade cristã deve ser no mundo instrumento de re-conciliação. A linguagem do Espirito é a linguagem da conciliação da diversidade e do amor.

Babel é a imagem de um projeto de mundo que – tentando unificar – massifica e, por isso, causa rupturas, injustiças, fechamentos, exclusão e divisões. Ainda hoje assistimos, estarrecidos, comportamentos desumanos que ferem a dignidade das pessoas na militância de discursos odiosos e cheios de preconceitos (de grupos e pessoas) que não admitem a beleza da diversidade: seja pela raça, pela condição social, pela sua nacionalidade (ou regionalidade), por questões de gênero. É tentativa fracassada de massificar as pessoas numa ideologia neofascista e ariana (raça pura). É Babel que ressurge em nosso tempo com os mesmos vieses político e religioso.

O discípulo de Jesus sabe que o Shalon de Deus é sempre um convite permanente à conciliação de todas as coisas.
É importante lembramos que uma Igreja reconciliada com Deus e com os homens necessita, dentro dela, de pessoas renovadas no Espírito. Os dons e os carismas, em corações dóceis e generosos, se transformam em ministérios e serviços para a edificação do bem comum (2ª leitura). Quando rezamos pelas vocações não fazemos por receio da escassez dos ministérios, mas também pela qualificação dos discípulos e missionários no dia de hoje.

Esta é a verdadeira festa da Nova Aliança. Força que faz-nos libertar do pecado, fonte da diversidade de dons e força da unidade.

A diversidade é a força da unidade das nossas comunidades. A nossa contribuição à unidade é o amor recíproco.

“Dai-nos Senhor estes dons esta luz (…)”.

Boa semana para todos!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O conteúdo do comentário é de inteira responsabilidade do leitor.