UM TIRO QUE PODE SAIR PELA CULATRA
Por Ramilton Marinho
(Breve reflexão de um professor do campus de Cuité)
No início dos anos 2000, mudei-me para Cuité para terminar de escrever minha tese de doutorado. À época, com a ressaca do ocaso da cultura sisaleira, ocorrido nas décadas anteriores, o fracasso da fruticultura e nenhuma perspectiva de futuro, a cidade parecia fadada ao completo fracasso e ao esquecimento. Como um povoado fantasma, o comércio encolhia, o setor de serviços decaía e nenhuma perspectiva se apresentava aos jovens, enquanto, na praça, dormitavam os dois únicos mototaxistas existentes.
Foi quando, em 2005, tive a honra de participar de um projeto revolucionário do governo Lula no campo da educação: implantar campi universitários em cidades de médio porte, com o objetivo de promover a inclusão educacional e o desenvolvimento social e econômico da região. Por iniciativa do ministro da Educação, Fernando Haddad, e do reitor Thompson Mariz, foi criado o Planexp, uma comissão formada pelo professor Márcio Caniello, por Martinho Salgado e por mim, cujo trabalho deu origem aos campi de Cuité, Sumé e Pombal.
Assim, voltei à minha terra como o primeiro professor do campus de Cuité, para auxiliar na construção desse campus, que se tornou um dos mais belos e bem-sucedidos do país.
Depois de uma década, Cuité era outra cidade. Quantos alunos de famílias pobres conseguiram concluir um curso superior? Quantos estavam cursando especialização, mestrado e doutorado? Quantos já faziam parte do mercado de trabalho? Uma verdadeira revolução nas perspectivas sociais ocorreu pelo incontestável caminho da educação.
Com o ingresso dos alunos formados como professores nas escolas da região e por meio dos projetos institucionais, conseguimos ajudar a transformar também o ensino fundamental e médio.
Mas não ficou só nisso! O ICMS e o ISS arrecadados no município aumentaram mais de cinco vezes; a indústria da construção surgiu e prosperou; cresceram significativamente os setores de comércio e serviços; abriram-se novas oportunidades culturais e sociais, e novos postos de trabalho foram criados. Cerca de 60 mototaxistas circulavam, então, pelas ruas, alguns alternando essa atividade com outras.
Eram quase 2.000 alunos, 130 professores, 45 técnicos e 116 trabalhadores terceirizados (pessoas da cidade que atuavam como vigilantes, motoristas, porteiros, cozinheiros, recepcionistas, pedreiros etc.). O campus tinha quase mil alunos recebendo bolsas de estudo, pesquisa ou extensão, muitos deles morando definitivamente ou parte do tempo na cidade.
Por meio de salários e bolsas, eram injetados, anualmente, mais de 15 milhões de reais na economia local. Sabiamente, o projeto do governo previa isso: educação, inclusão e desenvolvimento.
A despeito das críticas ao PT, muitas das quais compartilho, acho difícil que algum cuiteense desconheça a importância e a necessidade desse projeto para toda a nossa região.
O candidato Bolsonaro, talvez por medo ou inveja de quem estuda, por completa ignorância sobre o tema ou por seguir os interesses de setores que querem mercantilizar cada vez mais a educação, põe em risco esse projeto, que já está sendo sacrificado pelo governo atual. As ofensivas dele e de seus asseclas contra o ensino superior são claras e ferozes.
Ao capital não interessa o sucesso coletivo, mas, principalmente, o lucro e os interesses de grupos. Muitos apoiam abertamente esse candidato.
Pense nisso! Esse é um tiro que pode sair pela culatra.
Não merecemos reviver a sina de uma cidade fantasma!
Ramilton Marinho — Professor Titular da UFCG, Campus Cuité
Texto escrito em 2018, mas, infelizmente, mais atual do que nunca.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
O conteúdo do comentário é de inteira responsabilidade do leitor.